Projetos planejados para o clima evitam o surgimento de mofo e fungos dentro de casa, protegendo a saúde de crianças e adultos nos meses mais frios

O inverno costuma trazer um aumento das doenças respiratórias, principalmente entre crianças, que permanecem mais tempo dentro de casa. O que muitas pessoas não sabem é que a forma como uma residência é projetada pode contribuir para um ambiente mais saudável. Além de favorecer o conforto térmico, a arquitetura bioclimática reduz a necessidade de aquecimento artificial, melhora a ventilação natural e diminui condições favoráveis ao surgimento de mofo, fungos e ácaros.

Os benefícios também aparecem no consumo de energia. Segundo a Agência Internacional da Energia (IEA), as edificações e o setor da construção respondem por 36% do consumo mundial de energia e por 39% das emissões globais de dióxido de carbono (CO₂). Já um estudo publicado em 2025 na Science Direct também mostrou que o uso de materiais de baixa pegada de carbono e estratégias de arquitetura bioclimática pode reduzir em até 30% o consumo operacional de energia e diminuir em até 25% as emissões de CO₂ dos edifícios.

O país ainda possui uma característica que favorece esse tipo de arquitetura. A norma ABNT NBR 15.220-3 divide o território brasileiro em oito zonas bioclimáticas, estabelecendo diretrizes construtivas específicas para cada região, de acordo com as condições de temperatura, insolação e ventilação.

Para o arquiteto urbanista e diretor da BLOC Arquitetura Imobiliária, Alexandre Nagazawa, construir levando em consideração o clima local traz benefícios tanto para os moradores quanto para as cidades. “A arquitetura bioclimática parte de um princípio muito simples: antes de gastar energia para corrigir um problema, devemos evitar que ele exista. O projeto considera o clima, a incidência solar, os ventos, a vegetação e as características naturais de cada região para criar ambientes mais confortáveis, econômicos, saudáveis e sustentáveis”, explica.

Saúde começa no projeto

Durante o inverno, muitas residências apresentam ambientes frios, úmidos e pouco ventilados. Segundo Nagazawa, esses problemas normalmente têm origem ainda na fase do projeto. “Ambientes que recebem pouco sol permanecem frios durante vários dias. Quando isso é combinado com pouca ventilação, surgem umidade, mofo e fungos, fatores que prejudicam a qualidade do ar e favorecem problemas respiratórios”, afirma.

As crianças merecem atenção especial, já que passam boa parte do tempo brincando no chão e permanecem por mais tempo dentro dos ambientes. “A arquitetura não elimina as doenças respiratórias, mas reduz fatores ambientais que favorecem o aparecimento das crises. Quando a residência recebe ventilação natural, iluminação adequada e controle da umidade, o ambiente se torna mais saudável para toda a família”.

Casa aquecida sem abrir mão da qualidade do ar

Outro hábito comum durante o inverno é manter todas as janelas fechadas durante o dia. Embora isso ajude a conservar o calor, também dificulta a renovação do ar. “O ideal é promover uma ventilação rápida nos horários mais quentes do dia, permitindo a troca do ar sem resfriar excessivamente os ambientes. O conforto não depende apenas da temperatura. Também depende da qualidade do ar que respiramos”, ensina o arquiteto.

Ele explica que um projeto bem planejado conserva melhor o calor por meio da orientação solar adequada, do isolamento térmico e da escolha correta dos materiais construtivos.

“Ambientes voltados para o norte recebem maior incidência solar durante o inverno no Brasil. Materiais como concreto, alvenaria e pedra armazenam calor ao longo do dia e o liberam gradualmente durante a noite, reduzindo a necessidade de aquecimento artificial”, explica Nagazawa.

Pequenas mudanças fazem diferença

Mesmo em imóveis já construídos, algumas medidas simples podem melhorar o conforto dos ambientes durante o inverno.

Segundo o arquiteto, algumas dicas são abrir as janelas diariamente nos horários mais quentes; aproveitar ao máximo a entrada de luz solar; corrigir infiltrações antes do aparecimento de mofo; afastar móveis das paredes externas para favorecer a circulação do ar; manter telhados, calhas e esquadrias em boas condições; reduzir o acúmulo de poeira e optar por materiais de baixa emissão química em reformas.

Áreas verdes também contribuem para o conforto

Além das soluções adotadas nas edificações, a vegetação exerce papel importante na qualidade ambiental, de acordo com Nagazawa. “A presença de árvores ajuda a reduzir a temperatura, melhora a umidade do ar nos períodos secos, contribui para filtrar parte da poluição, diminui o aquecimento das fachadas e auxilia na absorção da água das chuvas. Uma casa saudável depende também de uma cidade saudável”, afirma.

Para o especialista, pensar a arquitetura como ferramenta de promoção da saúde e da eficiência energética representa uma necessidade diante dos desafios climáticos atuais. “O maior legado da arquitetura não é apenas construir edifícios. É criar condições para que as pessoas vivam melhor”.