Mesmo com o avanço nos índices do IBGE, educadora alerta para o abismo entre decodificar palavras e compreender o mundo

A queda da taxa de analfabetismo no Brasil para o índice histórico de 4,9%, revelada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acendeu um debate fundamental entre especialistas em educação: qual o real nível de leitura das crianças e jovens brasileiros? Segundo a pesquisa, apesar de a porcentagem representar a menor marca da série histórica, o país ainda somava cerca de 8,4 milhões de pessoas de 15 anos ou mais que não sabiam ler e escrever em 2025. Criado pela Unesco, o Dia Mundial da Alfabetização, celebrado em 8 de setembro, traz um alerta sobre a necessidade de acompanhar essa conquista numérica com métricas mais exigentes do que a capacidade de ler e escrever um bilhete simples.

Segundo Giulia Schneider, pedagoga e diretora da SIS Swiss International School Belo Horizonte, a percepção comum de que alfabetizar é apenas ensinar a decodificar símbolos não contempla a complexidade da aprendizagem. “Para a pedagogia, alfabetizar é o processo de apropriação da tecnologia da escrita, ou seja, o domínio das técnicas e habilidades necessárias para a representação alfabética. Já o letramento diz respeito à capacidade de usar essa escrita nas práticas sociais. Trata-se de saber ler e escrever para atingir objetivos reais de comunicação, interpretação e autonomia na sociedade”.

A visão da diretora é baseada nos estudos da educadora Magda Soares. Para que o sujeito conquiste autonomia, esses dois processos precisam estar entrelaçados, tanto na decodificação quanto no uso da linguagem. “A leitura de um bilhete simples é uma porta de entrada, mas o letramento com alfabetização é a conquista da autonomia”.

Giulia Schneider explica que ingressar no mundo letrado transforma a relação do indivíduo com o espaço ao seu redor. “A leitura abre portas para um universo que já está ao nosso redor. Isso vai desde a autonomia em tarefas práticas, como identificar a linha de um ônibus ou interpretar uma sinalização visual, até o acesso a conhecimentos complexos capazes de transformar trajetórias”, pondera.

Etapas do aprendizado e o ganho bilíngue

Segundo Schneider, a construção da aprendizagem da leitura e da escrita não é linear. A criança passa por diferentes estágios e formula hipóteses ativas sobre a escrita, transitando entre as fases pré-silábica, silábica, silábico-alfabética e alfabética. “Quando uma criança em fase de aquisição da escrita escreve ‘chocolate’ com ‘X’, por exemplo, ela não está cometendo um erro. Ela simplesmente faz uma associação pela relação entre som e letra. Ainda na fase alfabética, ela transformará o xocolate em chocolate. A fase seguinte é a ortográfica, na qual ela compreende as regras e convenções da língua. É um processo dinâmico de construção que pode se estender por toda a nossa vida”, analisa a especialista.

Em contextos de ensino bilíngue, esse processo ganha contornos específicos. “A alfabetização simultânea em mais de um idioma estimula a criança a  comparar estruturas, reconhecer sons e transitar entre diferentes lógicas culturais. Essa vivência fortalece a flexibilidade intelectual e aprimora a própria habilidade leitora em sua essência: a capacidade de atribuir sentido ao que se lê, independentemente do código”, explica Giulia.

Desafio nacional

Estudos sobre habilidade leitora e analfabetismo funcional indicam que o maior desafio da educação brasileira hoje não é apenas garantir o acesso à escola, mas assegurar um processo de aprendizagem de alta qualidade na ponta, formando leitores capazes de compreender textos complexos e analisar o mundo criticamente.

Para a diretora, o cenário atual exige que a educação dê um salto de qualidade na formação das futuras gerações. “Comemorar a queda nos índices absolutos de analfabetismo neste 8 de setembro é importante, mas o compromisso da educação precisa ir além dos indicadores mínimos. Formar leitores hábeis, críticos e reflexivos, capazes de navegar em um mundo hiperconectado e de analisar criticamente as diversas informações disponibilizadas, é o verdadeiro desafio da nossa época. Alfabetizar não é apenas ensinar a ler as palavras, mas ajudar cada pessoa a adquirir ferramentas para compreender e transformar o seu próprio tempo”, conclui Giulia Schneider.

Sobre a SIS- Swiss International School

A SIS Swiss International School opera uma rede de escolas bilíngues que abrange da educação infantil ao ensino médio. Fundada em 1995, a instituição é fruto de uma parceria entre o grupo suíço Klett e a Soliva AG. Com 20 unidades espalhadas por Suíça, Alemanha, Itália, Espanha e Brasil, a rede atende alunos de diversas nacionalidades.

A SIS-BH será a primeira unidade de Minas Gerais e a 5ª operação do grupo no país, que atualmente conta com três escolas no Rio de Janeiro e uma em Brasília. A unidade mineira está em construção no Belvedere e, inicialmente, vai atender a alunos do maternal ao segundo ano do Ensino Fundamental I com uma metodologia própria do ensino bilíngue. A unidade será inaugurada em fevereiro de 2027.