Avanços na pesquisa sobre terapia hormonal ampliam as possibilidades
A menopausa pode trazer dificuldades adicionais para mulheres que passaram pelo câncer de mama. Ondas de calor, alterações do sono, ressecamento vaginal e perda da libido estão entre os sintomas que afetam a rotina e a vida sexual após o tratamento oncológico. Quando a menopausa ocorre precocemente, em razão da retirada dos ovários ou de tratamentos contra o câncer, a queda dos níveis hormonais também pode comprometer a saúde óssea e cardiovascular.
A terapia hormonal é eficaz no controle de diversos sintomas da menopausa, mas seu uso em mulheres com histórico de câncer de mama continua sujeito a restrições. Em novembro de 2025, a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos (FDA) iniciou uma revisão das advertências de destaque nas bulas de terapias hormonais para a menopausa, com as primeiras alterações aprovadas em fevereiro de 2026. A mudança regulatória, no entanto, não estabelece segurança para mulheres que já tiveram câncer de mama.
“É importante distinguir as mudanças nas recomendações gerais para a menopausa das condutas indicadas para mulheres com histórico de câncer de mama. A terapia hormonal sistêmica geralmente é contraindicada nesse grupo, e eventuais exceções exigem avaliação especializada e decisão compartilhada entre a paciente e a equipe médica”, afirma a ginecologista Roberta Brando, especialista em terapia hormonal feminina e no cuidado de mulheres no climatério e na menopausa.
A cautela está relacionada aos resultados de pesquisas que identificaram aumento das recorrências em mulheres que utilizaram determinadas terapias hormonais após o diagnóstico de câncer de mama. Embora parte importante das evidências envolva pacientes com tumores que apresentam receptores hormonais positivos, os resultados não permitem concluir que a reposição seja segura para outros tipos da doença.
É o caso do câncer de mama triplo-negativo, caracterizado pela ausência de receptores de estrogênio e progesterona e pela negatividade para HER2, uma proteína relacionada ao crescimento celular. A ausência desses marcadores não comprova a segurança da reposição hormonal, e ainda faltam evidências robustas para orientar seu uso sistêmico em mulheres que tiveram esse tipo de tumor.
Uma revisão da literatura publicada em 2026 no *Journal of Cancer Research and Clinical Oncology*, de autoria de Inna Jörg e Dimitrios Chronas, examinou a questão entre pacientes com mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 e histórico de câncer de mama triplo-negativo. Os autores abordaram os desafios do controle dos sintomas da menopausa precoce nesse grupo, em que as evidências disponíveis ainda não sustentam o uso rotineiro de hormônios sistêmicos. “O tratamento precisa considerar tanto os efeitos da menopausa sobre a saúde quanto os riscos relacionados ao histórico oncológico. Na ausência de evidências consistentes, a prioridade é avaliar alternativas e discutir individualmente qualquer possibilidade de exceção, com acompanhamento multidisciplinar”, diz Roberta.
Há opções para aliviar os sintomas sem recorrer à terapia hormonal sistêmica. Para as ondas de calor, determinados antidepressivos e a gabapentina podem oferecer benefícios, conforme o quadro clínico e os medicamentos utilizados no tratamento oncológico. O ressecamento vaginal pode ser tratado com hidratantes de uso regular e lubrificantes durante a atividade sexual. A terapia cognitivo-comportamental também pode ajudar no manejo dos sintomas e de seus impactos emocionais, quando indicada.
Nos casos em que o ressecamento e outros sintomas geniturinários persistem apesar do uso de hidratantes, lubrificantes e outras medidas não hormonais, o estrogênio vaginal em baixas doses pode ser considerado após avaliação individual e discussão dos benefícios e das incertezas. Para mulheres que utilizam inibidores da aromatase, a decisão deve envolver a paciente, o ginecologista e o oncologista. “A absorção sistêmica do estrogênio vaginal tende a ser menor do que a observada com a terapia hormonal sistêmica, mas isso não significa ausência completa de absorção nem garantia de risco zero. Por isso, a indicação precisa levar em conta o histórico da paciente e a resposta às alternativas disponíveis”, explica a médica.
A avaliação também muda conforme o histórico clínico. Mulheres com mutações nos genes BRCA que retiram os ovários preventivamente, mas nunca tiveram câncer de mama, podem receber indicação de terapia hormonal até a idade habitual da menopausa, desde que não apresentem contraindicações. Para quem já enfrentou a doença, a decisão exige outra análise, que considere as características do tumor, o tratamento realizado e os riscos envolvidos.
“Cuidar da mulher após o câncer de mama significa também tratar os efeitos que permanecem depois do tratamento. A qualidade de vida precisa fazer parte desse acompanhamento, com escolhas individualizadas, diálogo entre as especialidades e atenção às evidências científicas disponíveis. O objetivo é aliviar os sintomas sem ignorar as particularidades de cada histórico oncológico”, conclui Roberta Brando.