Uso de tecnologia e experiência do cliente no pós-venda ganham protagonismo para reduzir perdas e melhorar desempenho no setor
O setor da construção civil é pressionado por prazos, custos e alta competitividade. Por isso, a gestão da qualidade tem se consolidado como um dos principais fatores para garantir eficiência e sustentabilidade nos empreendimentos. Dados do FGV Ibre indicam que falhas de qualidade e retrabalho podem elevar os custos de uma obra em até 12% e isso impacta diretamente a rentabilidade das construtoras.
Mais do que atender normas técnicas, empresas do setor têm ampliado o olhar sobre qualidade, incorporando processos preventivos, análise de dados e integração entre áreas como estratégia para evitar perdas e aumentar a produtividade.
Na prática, isso começa antes mesmo da execução. O gerente de Qualidade e Assistência Técnica da Emccamp, Romagno Soares, explica que o controle passa por etapas rigorosas de validação. “Existe um trabalho forte de prevenção, com homologação de materiais e acompanhamento dos serviços durante a execução. Se identificamos um desvio, a equipe é orientada e treinada imediatamente para evitar recorrência”, comenta.
O acompanhamento contínuo reduz falhas ainda no canteiro e evita que problemas avancem para etapas posteriores, que é quando o custo de correção é significativamente maior.
Qualidade além da norma
Apesar de ainda ser associada ao cumprimento de exigências técnicas, a qualidade tem assumido um papel mais estratégico dentro das empresas. O grande desafio, de acordo com a coordenadora e especialista em gestão da qualidade da Emccamp, Romana Cabral, está em tornar os processos mais eficientes e aplicáveis à rotina. “É possível cumprir requisitos normativos de forma mais ágil, com apoio de tecnologia e integração entre áreas. Quando a qualidade é incorporada ao dia a dia, ela deixa de ser burocrática e passa a gerar valor real para o negócio”, pontua.
O movimento também responde a um mercado mais exigente, no qual produtividade e cumprimento de prazos se tornaram determinantes. A integração entre equipes de obra, engenharia e escritório tem sido essencial para reduzir erros e otimizar processos.
Pós-venda como fonte de inteligência
Outro avanço importante está no uso de dados da assistência técnica como ferramenta de melhoria contínua. Informações coletadas no pós-venda têm sido estruturadas e analisadas para identificar padrões, corrigir falhas recorrentes e aperfeiçoar projetos futuros.
“Quem realmente conhece os problemas do produto é a assistência técnica. Quando essas informações são organizadas e compartilhadas, elas deixam de ser custo e passam a ser inteligência para a empresa”, afirma o diretor operacional da AGQ Brasil, Felipe Pompermayer Ribeiro.
Segundo ele, um dos principais desafios do setor ainda é transformar esse conhecimento em ação. “Muitas empresas perdem aprendizado por falta de comunicação interna. O conhecimento precisa circular para gerar melhoria contínua e evitar repetição de erros”, destaca.
Tecnologia e experiência do cliente
O avanço de ferramentas digitais também têm contribuído para elevar o padrão de qualidade. Tecnologias como BIM, rastreabilidade de processos e vistorias digitais permitem identificar incompatibilidades ainda na fase de projeto e acompanhar a execução com mais precisão.
Romagno explica que é possível sim antecipar problemas que antes só seriam percebidos durante a obra. “Isso reduz retrabalho, melhora o desempenho das equipes e traz mais segurança para o processo”, explica. Além disso, a digitalização facilita a gestão de grandes volumes de dados, permitindo decisões mais rápidas e assertivas.
A qualidade do trabalho e jornada do cliente também passou a ter impacto direto na imagem das construtoras. “Com o avanço da influência nas redes sociais e canais digitais, um cliente satisfeito se torna promotor da marca. Por outro lado, uma experiência negativa pode se espalhar rapidamente e comprometer a imagem da empresa”, observa Felipe.
Desde a compra até a entrega e assistência, nesse contexto, a experiência do cliente no pós-venda ganha relevância estratégica. Mais do que entregar um produto, o setor passa a lidar com expectativas e percepção de valor.
Mudança de mentalidade
O principal erro atualmente ainda está em tratar qualidade como custo, e não como investimento. “Quando a empresa entende que qualidade reduz retrabalho, melhora processos e aumenta a satisfação do cliente, ela passa a ser um diferencial competitivo”, diz Romana. A consolidação dessa visão depende, sobretudo, de cultura organizacional e engajamento das lideranças. “Qualidade precisa fazer parte da rotina. Não é um departamento, é uma forma de trabalhar”, completa a coordenadora.
O tema foi debatido no podcast Morar em Pauta, da Emccamp, e o episódio completo já está disponível no Youtube e Spotify.