Alexandre Nagazawa, arquiteto urbanista e diretor da BLOC Arquitetura Imobiliária

O horizonte de Belo Horizonte está mudando. Gruas avançam, fachadas envidraçadas se multiplicam e uma sequência de “street malls” de alto padrão toma forma entre o Belvedere e Nova Lima. À primeira vista, parece prosperidade. Mas o que se desenha não é exatamente uma cidade mais rica. É uma narrativa bem construída. E toda narrativa tem seu preço.

Nova Lima tem o maior PIB per capita do país, segundo o IBGE. O número impressiona, mas diz pouco sobre a vida cotidiana. Reflete a concentração de riqueza em setores como a mineração. Não traduz renda circulando. PIB não consome; quem consome é a renda disponível. Aí a equação mostra fissuras.

O que se vê no eixo Belvedere e Vila da Serra não é apenas um novo padrão de empreendimentos, mas na lógica de ocupação. Pequenos centros comerciais de tickets elevados, dependentes de carro e pouca integração com o espaço público. Lugares pensados como destino, não como parte da cidade. Esse modelo tem limites claros.

Ao concentrar o consumo em ambientes seletivos, ele reduz o que sustenta o comércio urbano: o fluxo constante de pessoas. A economia da cidade não se alimenta de picos ou exceções. Ela depende de repetição, diversidade e volume do cotidiano.

Como discutido por urbanistas como Jane Jacobs e Jan Gehl, a vitalidade urbana nasce da mistura. Do encontro entre diferentes rendas, usos e ritmos. Sem essa mistura, o que resta pode até parecer sofisticado, mas se torna frágil.

Talvez o problema seja um descompasso entre a oferta e a base real de consumo. Quantos empreendimentos para o topo da pirâmide a cidade sustenta ao mesmo tempo? Sem escala, o modelo se esgota. Sem diversidade, perde resiliência. O diagnóstico é conhecido, o caminho raramente se discute.

Um caminho longo e complexo para a solução urbana é o enfrentamento com a questão econômica da cidade. Enquanto o mercado imobiliário funcionar como principal receptor de excedentes vindos de setores concentradores, como mineração e agro, ele continuará produzindo ativos para o capital antes de produzí-los para a vida das pessoas. O imóvel deixa de ser resposta a uma demanda e passa a ser reserva de riqueza. Nesse cenário, pouco importa se há uso real suficiente. O que importa é preservar valor.

Não se trata apenas de planejamento urbano. Trata-se de estrutura econômica. Sem ampliação da renda disponível e sem uma base de consumo mais distribuída, qualquer tentativa de sustentar dinamismo urbano será, no máximo, parcial.

Outro caminho, mais imediato, depende de decisão local. A cidade pode escolher entre reforçar enclaves ou reconstruir relação com as pessoas. Incentivar usos mistos de verdade, aproximar moradia, trabalho e serviços, reduzir a dependência absoluta do carro, criar fachadas realmente ativas para as ruas, os verdadeiros olhos da rua como dizia Jacobs. Ou seja, voltar a produzir uma cidade vívida, densa, onde o comércio não depende de ser destino único, mas sim do fluxo natural de pedestres.

Esse caminho esbarra em limites reais. A região do Belvedere e entorno da Serra do Curral carrega restrições ambientais legítimas, sensibilidade paisagística e uma infraestrutura já tensionada. A resposta, não pode ser simplesmente adensar indiscriminadamente, mas também não pode ser congelar a cidade.

O desafio está na calibragem. Densidade com critério. Mistura com inteligência. Requalificação de áreas subutilizadas. Melhor distribuição territorial do crescimento, evitando concentrar toda a pressão em poucos vetores de prestígio.

O terceiro caminho é reequilibrar incentivos. Hoje, o sistema premia a produção de ativos imobiliários de alto valor e baixa integração urbana. Raramente premia quem produz cidade viva. Sem ajustar esse vetor, assistiremos à repetição do mesmo modelo, com pequenas variações estéticas.

A questão é simples, embora desconfortável. Estamos organizando a cidade para a circulação de pessoas ou para a acumulação de capital? Se for a segunda opção, o resultado é conhecido. Espaços impecáveis, bem desenhados, com marcas fortes, mas dependentes de uma demanda muita restrita e instável. Lugares que funcionam enquanto a narrativa se sustenta, e depois entram em ciclo de adaptação.

Se for a primeira, o caminho é mais complexo, mais lento e menos espetacular. Mas é o único capaz de produzir algo raro hoje. Uma cidade via e que funciona para as pessoas comuns.