Alexandre Seixas, ex-atleta, fundador e diretor do Instituto Mais Ação 

Garantir às crianças e aos adolescentes oportunidades para crescer com saúde, desenvolver habilidades, construir relações e descobrir o próprio potencial é um compromisso de toda a sociedade. O esporte tem um papel fundamental nesse processo. Mais do que uma atividade física ou uma opção de lazer, ele é uma ferramenta de desenvolvimento humano, inclusão social e formação cidadã.

Por isso, seu acesso não deve ser tratado como privilégio de quem pode pagar por aulas, uniformes e estruturas particulares, mas como parte do compromisso coletivo com os direitos de crianças e adolescentes.

Os números são preocupantes e ajudam a dimensionar a importância do debate. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 84% dos jovens brasileiros são sedentários. No cenário global, a Organização Mundial de Saúde (OMS) revela que cerca de 80% dos adolescentes de 11 a 17 anos, por exemplo, não atingem os níveis recomendados de atividade física.

A recomendação da OMS para crianças e adolescentes de 5 a 17 anos é de, em média, pelo menos 60 minutos diários de atividade física de intensidade moderada a vigorosa ao longo da semana. Os indicadores revelam um desafio de saúde pública. Mais do que alertar sobre o sedentarismo, precisamos criar oportunidades concretas para que crianças e adolescentes incorporem o movimento à rotina.

A prática de atividades físicas desde a infância contribui para o desenvolvimento corporal e motor, além de estimular hábitos saudáveis. Os benefícios do esporte, porém, não se limitam à saúde. A quadra também é um espaço de aprendizagem, convivência e descobertas, onde crianças e adolescentes vivenciam experiências que contribuem para sua formação e para a maneira como se relacionam com o mundo ao redor.

No esporte, a disciplina deixa de ser apenas um conceito abstrato. Ela aparece na responsabilidade de cumprir horários, ouvir orientações, respeitar regras e manter o compromisso com a equipe. A cidadania se manifesta no respeito aos colegas, na compreensão das diferenças e na capacidade de reconhecer que todos têm um papel importante no resultado coletivo. A resiliência é exercitada quando uma jogada não dá certo, quando uma derrota precisa ser assimilada ou quando é necessário tentar novamente para aprender uma nova habilidade.

Oferecer atividades esportivas regulares é uma maneira concreta de aumentar as alternativas disponíveis para crianças e adolescentes. Em vez de apenas recomendar que se movimentem mais ou utilizem menos o celular, precisamos criar oportunidades atrativas para que isso aconteça. Uma aula de futsal, uma partida de voleibol, uma atividade de judô ou uma brincadeira coletiva podem representar momentos de movimento, aprendizado e interação que fazem falta em uma rotina sedentária.

No entanto, para muitas famílias o custo de mensalidades, equipamentos, uniformes e transporte representa uma barreira significativa. É por isso que projetos esportivos gratuitos desempenham um papel tão relevante. Eles levam a prática esportiva a crianças e adolescentes que, de outra maneira, poderiam ter poucas oportunidades de participar de atividades orientadas. Quando são estruturados com planejamento, acompanhamento profissional e materiais adequados, esses projetos democratizam o acesso e fortalecem os vínculos com a escola e a comunidade.

Essa é a convicção que orienta o trabalho do Instituto Mais Ação, organização criada em 2018 no Barreiro, em Belo Horizonte, para promover inclusão social por meio do esporte. Ao longo da nossa trajetória, o instituto já atendeu a mais de 10 mil crianças e adolescentes e chegou a mais de 70 municípios, distribuídos por 16 estados brasileiros.

Entendemos que o esporte precisa ser acessível e fazer sentido na vida dos participantes. Por isso, nossos projetos gratuitos de esporte educacional oferecem não apenas aulas de diferentes modalidades, mas também uniformes, materiais adequados, atividades educativas e experiências que enriquecem o aprendizado para além dos treinamentos. O objetivo não é apenas ensinar uma criança a jogar, mas proporcionar condições para que ela desenvolva habilidades, fortaleça sua autoestima, aprenda a conviver e reconheça suas próprias capacidades.

Investir no esporte desde a infância é investir em saúde, educação, disciplina e cidadania. É criar ambientes em que crianças e adolescentes possam experimentar, errar, aprender, construir vínculos e descobrir que são capazes de superar desafios. É, sobretudo, reconhecer que cada uma delas merece oportunidades para desenvolver seu potencial.