Nas cidades de 15 minutos, tudo deve estar acessível em um raio de 15 minutos de distância, seja a pé, por bicicleta ou transporte público

Fonte Whow! – por Carolina Cozer 

O assunto de cidades inteligentes tem sido massivamente abordado nos últimos anos. E agora, na reta final de 2020, surge uma tendência totalmente nova dentro desse contexto, e que pode pautar o assunto em 2021 e além: as cidades de 15 minutos.

A cidade de 15 minutos é um projeto urbano cujo propósito é melhorar a qualidade de vida dos cidadãos ao transformar as cidades em locais onde tudo pode ser acessado em, no máximo, 15 minutos, seja a pé, de bicicleta ou de transporte público.

O conceito não é exatamente novo: o planejador americano Clarence Perry já falava sobre o assunto no início do século XX, propondo um esquema de unidades residenciais comunitárias e autossustentáveis. Já em 2019, o diretor-científico e professor especializado em sistemas complexos e inovação Carlos Moreno trouxe o conceito de crono-urbanismo. “Viver diferente significa, acima de tudo, mudar nossa relação com o tempo, essencialmente o tempo relacionado à mobilidade, que degradou muito a qualidade de vida devido ao deslocamento que custa em todos os aspectos.” diz Moreno em seu projeto oficial.

Fica claro, portanto, que a tese de Moreno e o cerne das cidades de 15 minutos estão em um desenvolvimento urbano decididamente sem carros. “A era dos carros onipresentes, associada a um estilo de vida baseado na propriedade de um veículo como elemento de status social, ainda está presente, mas está vacilando. Em uma época de efeitos altamente visíveis do impacto do clima em nossas vidas urbanas, há felizmente uma consciência crescente de que se tornou impossível respirar em nossas cidades devido ao triplo efeito das emissões produzidas por edifícios, redes de aquecimento e resfriamento e transporte movido a gasolina.”

O crono-urbanismo, assim, busca criar um cenário urbano com qualidade de vida e melhores relações entre tempo e espaço.

Paris em 15 minutos

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, foi quem colocou o conceito de cidades de 15 minutos na boca de todos em 2020. A prefeita vem transformando a capital francesa desde sua posse, em 2014, em uma cidade com menos carros, mais parques e áreas urbanas coletivas e defendendo publicamente a tese de Carlos Moreno.

Agora, há um conselho na prefeitura de Paris voltado a transformar a cidade em um cenário de 15 minutos, e Moreno, inclusive, se juntou ao conselho.

“É verdade que Paris já é uma cidade de 15 minutos até certo ponto”, diz Carine Rolland, comissária municipal, “mas não no mesmo nível em todos os bairros e nem em todos os setores do público”. Ela diz ao Bloomberg que ainda há muito a ser feito nos bairros da classe trabalhadora na extremidade leste de Paris, e que tudo precisa ser moldado para abraçar as necessidades individuais de cada um.Cidades de 15 minutos

Imagem: Plano parisiense para urbanização em 15 minutos

Como funciona?

Mas como as cidades de 15 minutos podem funcionar? Para tornar as cidades mais conviviais, ágeis e funcionais não se trata de construir mais rodovias para que as pessoas percorram 30 km em apenas 15 minutos, muito pelo contrário; é sobre um melhor planejamento da cidade, o que muitas vezes envolve reduzir ou eliminar por completo as ruas, estradas e rodovias e implantar mais meios de transporte público e ciclovias, além de descentralizar o comércio e o serviço público.

De acordo com o Global Smart City Knowledge Center, a cidade de Melbourne aplicou uma urbanização baseada em um conceito de 20 minutos, e o plano da cidade envolveu os seguintes elementos:

Shopping centers e serviços de saúde locais ✓

Escolas locais e centros de estudos ✓

Parques, playgrounds, áreas verdes, jardins comunitários e áreas esportivas ✓

Ruas com espaços seguros e com acessibilidade, opções de moradia a preços acessíveis e diversidade habitacional ✓

Caminhabilidade, ciclovias seguras e transporte público ✓

Oportunidade de trabalho local e ótima conexão de transporte público para outras áreas ✓

Assim, dentro da cidade de Melbourne, todos esses elementos precisam estar acessíveis à população em um raio de 20 minutos de distância, seja a pé, por bicicleta ou transporte público.

Cidades de 15 minutos no mundo

De acordo com o City Monitor, diversos lugares no mundo, além de Paris e Melbourne, procuram aplicar o conceito de cidade de 15 ou 20 minutos para melhorar as questões urbanas.

C40 Cities

O Grupo C40 de Grandes Cidades é um grupo com foco no combate às mudanças climáticas. O coletivo aposta na ideia de cidade de 15 minutos como o modelo correto para a recuperação econômica pós-Covid nas cidades.

Detroit

A cidade de Detroit organizou um conceito de cidade de 20 minutos, semelhante ao de Melbourne, na área em torno de sua extinta rede de bondes.

Portland

O plano de recuperação climática de Portland para 2030 prevê que 90% da cidade possa facilmente caminhar ou andar de bicicleta para atender a todas as necessidades diárias que não são relacionadas ao trabalho.

Ottawa

A capital canadense lançou um plano de bairros de 15 minutos para que os moradores possam fazer metade de suas viagens a pé, de bicicleta, transporte público ou de carona.