Mirtes Helena Scalioni

Para início de conversa, é muito difícil entender o que faz um tradutor forçar a barra ao ponto de transformar “Le sens de la fête” em “Assim é a vida”. Foi isso que aconteceu com o longa dirigido por Eric Toledano e Olivier Natache, responsáveis pelos ótimos “Os intocáveis” e “Samba“, ambos de sucesso. Com um título desses, mais parecido com nome de bolero antigo, fica quase impossível para o público imaginar que não se trata de nenhum dramalhão, mas sim de uma deliciosa comédia dramática que nada tem a ver com o título.

017_0010_v24.121996

Apesar de alguns clichês, o filme tem um humor fino e inteligente que, ao final das contas, faz uma crítica veemente aos abusos cometidos por casais na produção de suas festas de casamento. Pelo jeito, não é só no Brasil que os matrimônios viraram eventos de superprodução, com detalhes e exageros que beiram a cafonice. Na França também é assim. Na ânsia de ser granfina, muitas dessas festas perdem o sentido de celebração para ganhar pompas impessoais dignas de um show de rock. Não é à toa que o nome do filme em francês se refere ao “sentido da festa”.

0871418.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx

Além de dirigirem, Eric Toledano e Olivier Natache criaram um roteiro criativo: promotor de festas e eventos há mais de 30 anos, Max (Jean-Pierre Bacri) está vivendo um momento particularmente difícil na vida, ao mesmo tempo em que organiza uma megafesta de casamento que vai acontecer num majestoso castelo do século XVII, onde os garçons devem ir vestidos de lacaios do rei. Casado, e vivendo um romance com uma colega de trabalho (Suzanne Clèment), ele não sabe como resolver sua vida afetiva e sofre com isso.

A071C006_160610_R6ZX.360123

Mas não é só ele. No desenrolar do filme, o espectador vai descobrindo que cada um da equipe que Max contratou para a festa carrega seu pequeno drama particular, alguns bizarros. Do fotógrafo solitário e comilão, que não se conforma de estar perdendo espaço para os celulares cada vez mais potentes, ao garçom apaixonado pela noiva, passando pelo músico vaidoso e uma assistente sempre disposta aos palavrões e agressões, o grupo contratado por Max bem que poderia fazer com que o filme caísse no pastelão e na fanfarronice. Mas não é isso que acontece.

5698077.jpg-r_1920_1080-f_jpg-q_x-xxyxx

“Assim é a vida”, talvez pela direção e atuações comedidas, não descamba para o exagero. Pelo contrário, mantém a classe de filme francês, embora, de vez em quando caia em uma ou outra situação que lembra as manjadas comédias românticas americanas, cujo compromisso com o real beira o zero. Jean-Pierre Bacri como Max, Gilles Lellouche como o músico egocêntrico e canastrão, Eye Haidara como a assistente Adèle – de estopim curto -, Benjamin Lavernhe como o noivo prepotente e sem noção e todos os demais fazem o que deve ser feito, sempre na medida.

As vaidades individuais em detrimento do funcionamento perfeito do todo e a ideia de que o simples pode ser mais bonito e chique do que o pomposo são algumas das lições que podem ficar do filme.
Classificação: 12 anos
Duração: 1h57