Doença afeta cerca de 2,1 milhões de brasileiros anualmente e exige atenção redobrada com sintomas atípicos e riscos de broncoaspiração na terceira idade
Com a chegada do inverno, que começa oficialmente em 21 de junho, aumenta a preocupação com as doenças respiratórias, especialmente entre a população idosa. A pneumonia afeta cerca de 2,1 milhões de brasileiros todos os anos, segundo dados do Datasus. A doença também é a principal causa de internação hospitalar no país, respondendo por mais 960 mil hospitalizações anuais, além de ser a quinta maior causa de morte nacional.
Embora muita gente associe a doença apenas ao frio, especialistas explicam que a pneumonia ocorre ao longo de todo o ano. Ainda assim, sua frequência cresce cerca de 30% durante o inverno. O aumento não acontece diretamente por causa das baixas temperaturas, mas pela mudança de comportamento característica desse período, quando as pessoas passam mais tempo em ambientes fechados e menos tempo ao ar livre, o que facilita a circulação de vírus e outros microrganismos.
Um estudo publicado na Revista Brasileira de Implantologia e Ciências da Saúde, com base em dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS) de 2014 a 2024, aponta que a pneumonia continua entre as principais causas de morte de quem tem mais de 80 anos no Brasil. Esse grupo etário específico já responde por 44,5% das internações pela doença na rede pública.
Segundo Renato Calil, pneumologista da Hapvida, o envelhecimento aumenta a vulnerabilidade aos quadros mais graves. “A pneumonia é uma infecção que inflama os pulmões e dificulta as trocas gasosas. Na terceira idade, o quadro tende a ser mais grave porque ocorre uma redução natural da capacidade de defesa do organismo com o passar dos anos. Além disso, doenças como diabetes, insuficiência cardíaca, DPOC, asma, doença renal e enfermidades neurológicas aumentam o risco de complicações”, explica.
Sintomas podem ser diferentes em pessoas idosas
Embora os sintomas clássicos da pneumonia sejam febre, tosse, catarro, falta de ar, dor no peito e cansaço, a manifestação da doença nem sempre ocorre dessa forma entre os mais velhos.
Entre as pessoas idosas, os primeiros sinais podem ser a confusão mental, sonolência excessiva, perda de apetite, fraqueza importante, quedas frequentes ou piora de doenças já existentes.
“Essa apresentação atípica pode atrasar o diagnóstico e o início do tratamento. Muitas vezes o familiar não associa esses sintomas a uma infecção pulmonar, o que pode retardar a procura por assistência médica”, afirma o especialista.
O perigo da pneumonia por broncoaspiração
Entre as diferentes formas da doença, a pneumonia por broncoaspiração — que ocorre quando alimentos, saliva ou conteúdo gástrico entram involuntariamente nas vias aéreas — merece alerta máximo.
Segundo estudos clínicos publicados na Revista CEFAC, a broncoaspiração figura como a principal causa de infecção pulmonar e óbito entre pessoas idosas hospitalizadas ou que sofrem de disfagia (dificuldade de engolir), risco que é severamente ampliado por sequelas de AVC ou quadros avançados de demência.
Frio favorece o aumento dos casos
Durante as estações mais frias, o ar seco e a permanência prolongada em locais fechados e pouco ventilados criam o cenário ideal para a propagação de agentes infecciosos.
“O inverno favorece a transmissão de vírus como Influenza e Vírus Sincicial Respiratório (VSR). Além disso, essas infecções podem abrir caminho para pneumonias bacterianas, especialmente em pessoas que já apresentam alguma fragilidade de saúde”, destaca o pneumologista da Hapvida.
Entre os fatores que aumentam o risco de pneumonia estão idade avançada, tabagismo, doenças pulmonares crônicas, diabetes, insuficiência cardíaca, câncer, uso de medicamentos imunossupressores, doenças neurológicas, desnutrição, dificuldade para engolir e residência em instituições de longa permanência.
Vacinação ajuda a evitar casos graves
A vacinação é uma das principais formas de proteção contra complicações respiratórias durante o inverno.
“As vacinas contra gripe, pneumococo e Covid-19 ajudam a reduzir o risco de formas graves da doença, hospitalizações e mortes. Por isso, é importante manter o calendário vacinal atualizado”, orienta o médico.
Além da imunização, outras medidas ajudam na prevenção, como higienizar frequentemente as mãos, manter os ambientes ventilados, evitar contato próximo com pessoas gripadas, não fumar, manter alimentação equilibrada, hidratação adequada e acompanhamento regular das doenças crônicas.
Automedicação pode atrasar o tratamento adequado
O tratamento da pneumonia varia conforme a causa e a gravidade do quadro. Dependendo da situação, podem ser necessários antibióticos, hidratação, controle da febre, oxigenoterapia, fisioterapia respiratória e internação hospitalar.
O especialista orienta que a automedicação representa um risco importante para a longevidade. “A automedicação pode mascarar sintomas, dificultar a identificação do problema e favorecer o uso inadequado de antibióticos. Além disso, muitas pessoas idosas já utilizam diversos medicamentos contínuos, o que aumenta a possibilidade de efeitos adversos e interações medicamentosas”, explica.
Sinais como febre persistente, tosse, falta de ar, confusão mental ou piora do estado geral devem motivar uma avaliação médica o mais cedo possível. “O diagnóstico precoce aumenta as chances de recuperação e reduz o risco de complicações”, conclui.