Com 23 milhões de casos globais, interrupção do acompanhamento médico preocupa especialistas e eleva o risco de surtos e perda funcional
A esquizofrenia afeta cerca de 23 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O dado traz à tona a urgência do debate contínuo sobre o tema na área da saúde mental. Trata-se de um transtorno mental grave, que se caracteriza pela perda de contato com a realidade e apresenta sintomas como alucinações, delírios, além de alterações profundas no pensamento e no comportamento.
Os primeiros sinais costumam surgir na adolescência. De acordo com a OMS, a esquizofrenia está entre as principais causas de perda de qualidade de vida em pessoas entre 15 e 44 anos. No Brasil, a estimativa é que cerca de 1,6 milhão de pessoas convivem com o transtorno. Além dos desafios impostos pela doença, muitos pacientes ainda enfrentam estigma e preconceito por causa da desinformação.
“A esquizofrenia é um transtorno mental crônico que se manifesta por alterações no pensamento, nas emoções e na percepção da realidade. Entre os principais sintomas estão delírios, alucinações, principalmente auditivas, e desorganização do pensamento”, explica Nikolas Vale, psiquiatra da Hapvida.
Além desses sintomas, o quadro também pode evoluir com isolamento social, apatia e dificuldade de concentração. Mudanças de comportamento, queda no desempenho acadêmico ou profissional e desconfiança excessiva estão entre os sinais que podem surgir nas fases iniciais.
“O diagnóstico é feito a partir de uma avaliação psiquiátrica detalhada, que considera o histórico do paciente ao longo da vida e fatores familiares. Muitas vezes, a família percebe alterações de comportamento antes mesmo de o paciente reconhecer que algo não está bem”, destaca.
O tratamento é baseado principalmente no uso de medicamentos antipsicóticos, que atuam no controle dos sintomas. Embora não haja cura, o acompanhamento contínuo pode retardar a progressão da doença e reduzir o comprometimento cognitivo.
“Com o tratamento adequado, é possível conter o avanço da doença e preservar a capacidade funcional do paciente por mais tempo. A medicação, aliada a um ambiente familiar estruturado, faz diferença no prognóstico”, afirma.
Interrupção do tratamento agrava quadro
Um dos principais desafios no cuidado com a doença é a continuidade do tratamento. Fatores como efeitos colaterais, entre eles ganho de peso e alterações na libido, além da dificuldade do paciente em reconhecer a própria condição, contribuem para que muitos deixem de seguir corretamente as orientações médicas.
“Quando o tratamento é interrompido, aumenta o risco de recaídas e de surtos psicóticos, que são episódios de desorganização mental intensa, com delírios e alterações comportamentais importantes. A cada novo episódio, pode haver maior prejuízo cognitivo”, alerta o especialista.
Estigma ainda é barreira
O preconceito em torno da esquizofrenia continua como um dos principais obstáculos para o diagnóstico e tratamento. O medo e a falta de informação contribuem para o isolamento social dos pacientes e dificultam o acesso ao cuidado adequado.
“As pessoas com esquizofrenia são muito mais vítimas do que agressoras. Por conta das alterações comportamentais e da vulnerabilidade, elas acabam mais expostas a situações de violência e exclusão”, ressalta.
Família tem papel essencial
O apoio familiar é um dos pilares no cuidado com o paciente. A relação deve ser baseada em empatia e acolhimento, com o reconhecimento de que, embora os sintomas não sejam reais para os outros, o sofrimento do paciente é legítimo.
“A família precisa entender que, para o paciente, os delírios e alucinações são reais. Por isso, é importante evitar confrontos diretos, manter a calma e oferecer suporte emocional, além de incentivar a continuidade do tratamento”, orienta.
Durante crises, a recomendação é priorizar a segurança e buscar ajuda especializada.
“Em momentos de surto, o ideal é manter um ambiente tranquilo, evitar discussões e procurar atendimento médico o quanto antes, de modo a garantir a segurança do paciente e das pessoas ao redor”, conclui.