Reni Moreira, cirurgiã oncológica e diretora médica do Hospital Vera Cruz-Hapvida
O medo ainda é um dos maiores obstáculos no combate ao câncer. Para muitos, a simples possibilidade de receber o diagnóstico é paralisante o suficiente para adiar exames e consultas médicas. Vivemos um paradoxo perigoso: teme-se mais descobrir a doença do que conviver com ela sem saber. No entanto, o risco real não está no diagnóstico, mas no silêncio que permite à doença avançar para estágios críticos.
Esse receio está profundamente enraizado no estigma histórico do câncer, no medo do tratamento e na ideia equivocada de que o diagnóstico representa, automaticamente, um fim inevitável. Precisamos atualizar essa percepção. A oncologia moderna, os estudos, pesquisas e tratamentos mudaram o jogo, e o “fantasma” do passado não condiz com as taxas de sucesso do presente.
Celebrado em 4 de fevereiro, o Dia Mundial do Câncer chama a atenção para a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e da adoção de hábitos saudáveis. A data foi estabelecida no ano 2000, durante a Cúpula Mundial contra o Câncer para o Novo Milênio, em Paris, como uma iniciativa da União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), com apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS). O objetivo é reduzir a mortalidade, combater o estigma e ampliar a conscientização sobre a doença, promovendo cuidados mais justos e acessíveis.
Os números ressaltam a urgência desse debate. A OMS estima que o mundo terá 35,3 milhões de novos casos de câncer em 2050, um aumento de 83% em relação a 2022. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o Brasil pode ter um milhão de novos casos de câncer por ano até 2040.
Apesar desse cenário, muitos casos poderiam ser evitados. Uma pesquisa divulgada em 2024 pela Sociedade Americana do Câncer aponta que cerca de 40% dos casos da doença em pessoas com 30 anos ou mais, e quase metade das mortes relacionadas ao câncer, estão associadas a fatores de risco evitáveis, como tabagismo, alimentação inadequada, sedentarismo, consumo excessivo de álcool e exposição solar sem proteção.
Embora exista a percepção de que o câncer seja predominantemente hereditário, apenas uma parcela dos casos está relacionada a fatores genéticos. O envelhecimento da população explica parte do aumento da incidência, mas mudanças no estilo de vida moderno, como o consumo de alimentos ultraprocessados e a falta de atividade física, têm contribuído de forma significativa. Um dado que preocupa especialistas é o crescimento da doença entre jovens adultos, o que reforça a necessidade de ações preventivas desde cedo.
Nesse contexto, é fundamental ressignificar o medo. O receio não deve estar no diagnóstico, mas sim no atraso em descobri-lo. Quando identificado precocemente, muitos tipos de câncer apresentam altas chances de cura e podem ser tratados de forma menos agressiva, com melhores resultados e qualidade de vida.
A prevenção passa, principalmente, pela adoção de hábitos saudáveis, como não fumar e evitar a exposição à fumaça do cigarro; evitar ou reduzir o consumo de bebidas alcoólicas; praticar atividade física regularmente; manter uma alimentação equilibrada rica em frutas, verduras, legumes e grãos; controlar o peso corporal; evitar a exposição excessiva ao sol e usar proteção solar e manter a vacinação em dia como a vacina do HPV.
Além disso, os exames preventivos desempenham papel fundamental na detecção precoce do câncer, muitas vezes antes mesmo do surgimento de sintomas. Entre eles estão o exame de toque retal e o PSA para o câncer de próstata, o preventivo do colo do útero (Papanicolau), a mamografia, além de exames como endoscopia e colonoscopia, indicados conforme idade, histórico familiar e orientação médica.
Apesar do impacto emocional do diagnóstico, é importante reforçar que o câncer não é mais uma sentença de morte, mas o atraso no diagnóstico pode ser. Os avanços da ciência, da tecnologia e das terapias oncológicas permitem tratamentos cada vez mais eficazes e personalizados. Hoje, o cuidado é realizado por uma equipe multidisciplinar, envolvendo médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e outros profissionais de saúde, garantindo um atendimento integral e humanizado.
O Dia Mundial do Câncer evidencia uma mensagem essencial: informação, prevenção e diagnóstico precoce salvam vidas. Superar o medo é, acima de tudo, um ato de coragem e o maior gesto de cuidado que se pode ter com a saúde, a própria vida e o futuro.