Rodrigo Magalhães, endocrinologista da Hapvida
A obesidade deixou de ser, há muito tempo, uma questão meramente estética. Trata-se de uma doença crônica, complexa e multifatorial, caracterizada pelo acúmulo anormal ou excessivo de gordura corporal, em quantidade que leve prejuízos à saúde. Reconhecida como um dos principais problemas de saúde pública do século XXI, ela está diretamente associada ao desenvolvimento de diversas enfermidades e impacta a qualidade e a expectativa de vida da população.
O alerta ganha ainda mais relevância neste 4 de março, quando é celebrado o Dia Mundial da Obesidade. Os dados são alarmantes. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o excesso de peso atingiu proporções epidêmicas em todo o mundo. As estimativas mais recentes da OMS indicam que 2,3 bilhões de adultos estão acima do peso, sendo 700 milhões já com obesidade. O cenário não só impressiona, como sobrecarrega os sistemas de saúde e amplia o risco de doenças associadas.
No Brasil, os números seguem a mesma tendência global preocupante. O Atlas Mundial da Obesidade de 2025, da World Obesity Federation, apontou que 68% da população está com excesso de peso, sendo 31% com obesidade. O relatório ainda destacou que a doença pode crescer em até 46,2% entre mulheres e 33,4% entre homens até 2030.
Do ponto de vista clínico, a obesidade promove um estado de inflamação crônica no organismo. Esse processo compromete a camada interna dos vasos sanguíneos, acelera a formação de placas de gordura nas artérias e promove distúrbios metabólicos que sobrecarregam o coração e o sistema vascular. A doença ainda aumenta significativamente o risco de doenças cardiovasculares, hipertensão, AVC e diabetes tipo 2.
É fundamental compreender que a obesidade não é resultado exclusivo de escolhas individuais. Fatores socioeconômicos exercem influência direta sobre esse quadro. Pessoas de menor renda tendem a ter maior consumo de alimentos ultraprocessados, mais calóricos e de menor custo, em detrimento de alimentos frescos e nutritivos. A baixa escolaridade também pode dificultar o acesso à informação qualificada sobre saúde, autocuidado e prevenção.
Além disso, o estilo de vida contemporâneo contribui para o agravamento do problema. Jornadas extensas de trabalho, turnos noturnos e privação de sono alteram o metabolismo, prejudicando a perda de peso. Entre as mulheres, fatores hormonais como menopausa e hipotireoidismo se somam a questões sociais, a paridade (número de filhos) e o uso de contraceptivos podem influenciar o ganho de peso em determinadas fases da vida. Soma-se a isso a chamada “tripla jornada”, que reduz o tempo disponível para o autocuidado e aumenta os níveis de estresse, outro elemento associado ao acúmulo de gordura corporal.
O sedentarismo também preocupa. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, (IBGE), indicam que entre 40% e 50% da população adulta brasileira não pratica atividade física na frequência e intensidade recomendadas. A inatividade física agrava o risco de doenças metabólicas e cardiovasculares, enquanto a prática regular de exercícios melhora a sensibilidade à insulina, auxilia no controle do peso e reduz complicações. Pequenas mudanças na rotina, como caminhar regularmente já trazem benefícios importantes.
O enfrentamento da obesidade exige uma abordagem multidisciplinar. Reeducação alimentar, prática regular de atividade física e acompanhamento com endocrinologista, nutricionista, psicólogo e educador físico são pilares do tratamento. Em alguns casos, pode ser necessário o uso de medicamentos que atuam na regulação hormonal da saciedade. Quando indicadas, pode haver a adoção de intervenções terapêuticas específicas, definidas de forma individualizada conforme as necessidades de cada paciente,
Outro ponto central é o combate ao estigma. O preconceito em relação ao peso corporal ainda é uma barreira importante. Muitos pacientes deixam de buscar ajuda por medo de julgamento, inclusive no ambiente de saúde. Esse atraso no diagnóstico e no tratamento aumenta o risco de complicações e perpetua o ciclo da doença. É preciso substituir a culpabilização pela escuta qualificada e pelo acolhimento.
Neste Dia Mundial da Obesidade, o alerta é evidente. Enfrentar essa doença exige mais do que força de vontade individual. São necessárias políticas públicas que ampliem o acesso à alimentação saudável, incentivem a prática de atividade física, promovam educação em saúde e garantam tratamento adequado na rede pública e privada.
A obesidade é um desafio coletivo. Quanto mais cedo houver conscientização, diagnóstico e intervenção, maiores serão as chances de reduzir complicações, preservar vidas e construir uma sociedade mais saudável.