Alexandre Nagazawa, arquiteto urbanista e diretor da BLOC Arquitetura Imobiliária

O Parque Municipal Américo Renê Giannetti, patrimônio ambiental no coração de Belo Horizonte, é um dos mais importantes espaços verdes da cidade.  Projetado em 1897, pelo paisagista francês Paul Vilon, ele chegou a ter, no plano original de Aarão Reis, mais que o dobro da área que possui hoje. Ao longo de mais de um século, perdeu espaço para avenidas, edifícios e equipamentos diversos, como a área hospitalar. A área que nasceu com vocação de ser pulmão verde da cidade foi sendo dilapidada, reduzida à atual configuração de quase 193 mil m².

Com a pandemia, as entradas secundárias do parque foram fechadas por justificativa sanitária. No entanto, mesmo após o fim das restrições, permaneceram inacessíveis, sob argumento de que a concentração em poucos acessos facilitaria o controle da segurança e a vigilância. Agora, algumas delas voltam a ser reabertas, reacendendo o debate sobre qual deve ser o papel do parque na malha urbana e na vida cotidiana da população de Belo Horizonte.

Em vez de se integrar cada vez mais à cidade, o Parque Municipal teve seus acessos fechados e limitados a poucos portões, o que compromete sua permeabilidade urbana e sua vocação como espaço público. E por que não reabrir todas as entradas do Parque Municipal? A resposta parece simples, mas esbarra em questões complexas de urbanismo, segurança pública e política social.

O problema, porém, vai além da quantidade de portões abertos. Apesar de ser uma cidade com mais de 2,3 milhões de habitantes, segundo o Censo do IBGE, Belo Horizonte concentra a maior parte de seus melhores parques e praças na região Centro-Sul. Isso deixa vastas áreas periféricas praticamente sem opções de lazer e áreas verdes públicas.

Quando olhamos para o mundo, a comparação é inevitável. Em Londres, o Hyde Park, é um exemplo histórico de parque permeável, com múltiplos acessos, onde a circulação é livre. Em Nova York, o High Line Park, transformou uma antiga linha férrea elevada em passeio verde que costura bairros distintos, criando integração, segurança e vitalidade urbana. Em Paris, o Parc de la Villette e o Parc des Buttes Chaumont mostram como parques podem ser espaços híbridos e democráticos, mesclando lazer, cultura e arte.

No Brasil, Curitiba se destaca como referência mundial. A cidade consolidou uma rede de parques públicos gratuitos que, além de lazer, cumprem papel estratégico na drenagem urbana e na valorização da paisagem. O Jardim Botânico, o Parque Barigui e o Tanguá se tornaram ícones de um urbanismo que busca democratizar o acesso e integrar o cidadão ao espaço natural, sem restrições de classe. Seus parques são gratuitos, abertos e distribuídos de maneira mais equilibrada pelo território urbano.

Nesta comparação, Belo Horizonte enfrenta uma equação complexa: como preservar e democratizar seus espaços públicos diante de desafios como a violência urbana, o aumento da população em situação de rua e todos os seus custos operacionais. Segundo dados do Censo 2022, a capital mineira contabiliza 14.361 pessoas em situação de rua, um crescimento de 254% em relação a 2010. Essa realidade se reflete diretamente nos parques e praças, que muitas vezes se tornam territórios de sobrevivência e insegurança.

O desafio da administração pública não é apenas urbanístico, mas social, e não será resolvido apenas com a reabertura de portões. As justificativas para restringir as entradas do Parque Municipal vão além do discurso da gestão. Estão talvez ligadas à dificuldade histórica de lidar com questões como moradores de rua, consumo de drogas, pequenos furtos e insegurança.

A pergunta que se impõe é: qual é o verdadeiro papel de um parque na vida urbana? Ser apenas um refúgio protegido? Ou um palco da convivência plural, onde o verde encontra a cidade e a cidade encontra o verde? Um lugar onde a criança pode brincar, o idoso caminhar, o jovem se reunir, o trabalhador descansar, e o visitante contemplar?

Reabrir todas as entradas do Parque Municipal não é apenas uma decisão administrativa ou de desenho urbano. É um gesto simbólico e pragmático de reconectar a cidade ao seu espaço público mais central e emblemático.

O desafio, em Belo Horizonte, é não perder de vista que urbanismo sozinho não basta. É preciso coragem para enfrentar as raízes sociais e econômicas da exclusão e, ao mesmo tempo, sensibilidade para reconhecer que, na simplicidade de um parque aberto, repousa a promessa de uma cidade mais justa, democrática e humana.